O Cisma de Constantinopla

Bom, como prometido anteriormente, hoje vou buscar adentrar um pouco as questões históricas do Cisma de Constantinopla, e da relação Catolicismo-'Ortodoxia'. Me desculpem pelas aspas, mas as pus por questão de objetividade. O significado da palavra ortodoxia é algo como "a fé verdadeira". Como já havia mencionado ao início deste blog, todo o meu movimento aqui parte da minha crença de que a fé verdadeira é a católica.

É preciso antes esclarecer que não houve apenas um cisma de Constantinopla (o de 1054). Houve vários deles. De fato, foram notórias as relações de um modo geral tensas entre Roma e Constantinopla, desde a ascensão da última, a partir do momento em que se tornara a capital imperial.

Ocorre que, ao início de tal processo, as principais igrejas na hierarquia católica eram, nessa ordem de precedência: Roma, Alexandria, Antióquia, Jerusalém, Constantinopla. Esta última, ao contrário das outras quatro, não fora fundada por um apóstolo, e cresce em importância em grande fato devido ao já mencionado evento de sua transformação em capital.


Mundo cristão ainda no início; nessa época, Roma, Alexandria e Antióquia eram os principais centros da cristandade. Isso é antes da transformação de Bizâncio em capital, e de Jerusalém em patriarcado.


O que se passa a partir daí é que a cidade, comumente com o apoio do imperador, de certa forma usurpa os demais patriarcados orientais, ou seja, todos esses mencionados, com exceção de um - Roma. Pois esta última era a única das cinco cidades que não se encontrava sob domínio do Império Bizantino. As outras - Alexandria, Antióquia, Jerusalém - passam a ser de certa forma submissas a Constantinopla, alterando a ordem original.

Enquanto no Ocidente, Roma evangeliza os bárbaros que destruíram o Império Romano Ocidental, e assim se estabelece uma ordem que será comum na Idade Média europeia - em que a Igreja é mestra das nações, e o poder espiritual obtém precedência sobre o temporal (mas mantendo a distinção entre um e outro) - na parcela oriental do antigo império, o poder tanto temporal quanto espiritual será concentrado em torno de Constantinopla, tornando a cidade quase que um "papado" do Oriente - de forma ilícita, pois tal ascendência tinha cunho político (imposição secular imperial sobre uma questão espiritual da Igreja) e, como já mencionado, violava a ordem estabelecida na hierarquia dos patriarcados.

O último e único grande obstáculo para tal ascendência constantinopolitana era, claramente, Roma - ou seja, o papa. Daí veio não apenas um conflito, mas diversos conflitos, que caracterizariam a relação entre os dois patriarcados.

Surge dessa frequente resistência do papa às pretensões bizantinas o ranço anti-latino e anti-papal de Constantinopla, que culminará nos cismas, notoriamente o de Fócio, no século nono, e o de Miguel Cerulário, mais famoso ainda, e tido por muitos como o definitivo, em 1054.

Sob homens como Justiniano, o Império Bizantino demonstrava um desejo de conquistar as regiões que outrora pertenceram ao Império Romano Ocidental, dentre as quais se incluía a Itália - ou seja, Roma e o papado.

Em laranja, terras iniciais de Justiniano; Em bege, terras conquistadas sob seu reinado.

O papa porém manteve em grande parte sua autonomia (mesmo após a conquista de Roma, sob Justiniano), e mais tarde se aliaria aos francos convertidos, na já mencionada influência que o papado passou a ter sobre os convertidos reis bárbaros - daí surgiria mais tarde o Sacro Império Romano - quando da invasão da Itália pelos lombardos. Os bizantinos falharam em socorrer Roma contra a agressão lombarda, o que levou o papa a recorrer aos francos, que obtiveram sucesso na guerra.

É claro que Bizâncio via isso com muito maus olhos. Tinha-se a impressão de que o papa havia trocado a grandiosa e civilizada Constantinopla, "verdadeira herdeira do Império Romano", por um monte de bárbaros. Daí também surgiria outro grande ódio bizantino - o ranço "anti-franco", anti-ocidental. O ódio contra as nascentes nações católicas da Europa Ocidental, e da grande influência que Roma teria sobre elas.

Tudo isto também explica bem os sentimentos que levaram à crescente rebeldia anti-papal de Constantinopla, somando-se a isso a grande ambição e sede por poder - o já referido desejo do patriarca de crescer na hierarquia da Igreja, e, por parte do imperador, o desejo de governá-la.

Quando o cisma ocorre, as nações e bispados que já estavam sob forte influência bizantina, como a Rússia - e já haviam muitas delas também se embebido do ódio aos latinos (a própria Rússia tinha, à época, um clero em grande parte grego, com episódios de hostilidades contra católicos latinos mesmo antes do cisma) - simplesmente tendem a seguir sua 'igreja-mãe', separando-se também da comunhão.

Daí nascem os que hoje chamamos de Ortodoxos (não confundir com os ortodoxos não-calcedonianos, comuns no Egito, Etiópia, Armênia... estes se separaram bem antes, em 451, ao não aceitarem a decisão no Concílio de Calcedônia sobre a natureza dual de Cristo - totalmente homem, totalmente Deus, e simultaneamente).

A ideia promovida por tais cismáticos, e daí se tira seu nome, era que Roma havia caído em heresia, e Constantinopla era quem guardava a verdadeira fé. As acusações de suposta "heresia" dos latinos eram das mais absurdas, desde o celibato clerical, passando pelo uso de pães ázimos na comunhão, ou da Filioque (na prática, o mesmo conceito de processão do Espírito Santo que tinham os bizantinos, apenas expresso de forma diferente), o costume de raspar a barba, etc.

Em suma, diferenças puramente culturais ou rituais, que não expressavam nenhuma real diferença de fé.

Na verdade, quem vê as listas de Fócio e de Miguel Cerulário percebe que são apenas pretextos, acusações absurdas cujo único objetivo era sedimentar de uma vez por todas a divisão contra Roma. E, infelizmente, conseguiram.

Por hoje é só. Espero não perturbar ninguém com este texto, e o compartilho apenas por conter informações da história da Igreja que talvez muitos não conheçam bem.

A paz de Cristo!

Rio de Janeiro, 06 de janeiro de 2021.

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